quarta-feira, 12 de novembro de 2008

A caminho do nada

Uma viagem de mil quilômetros a bordo de um 4X4 pelas terras altas, secas, frias e vazias do Altiplano Boliviano




Henrique Skujis, de Coquesa

Matéria publicada na edição 188 (Dezembro/2007) de Terra


Foi um misto de Chico Bento com Schopenhauer. Do caipira, me veio à mente um quadrinho no qual o personagem de Maurício de Souza encontra-se sozinho, abandonado pelo cartunista, sem Rosinha, sem goiabeira, sem nada. Do escritor prussiano, recordei as impalpáveis reflexões sobre a necessidade de fugir para o nada como caminho reto para a felicidade. Uma escapada mental esquisita, mas pertinente quando se caminha à toa pelo Salar de Uyuni, a maior planície de sal do mundo. No imenso tapete branco de 12 mil quilômetros quadrados (dez vezes o tamanho da cidade do Rio de Janeiro!), o reflexo do sol une terra e céu, engana o olho e ilude a mente. O nada dá as caras e passa a ser tudo que se tem.Buzinas. Dom Marcelino, o motorista de nossa expedição, desperta-me dos devaneios. "Vamos", insiste com o pé no acelerador. Como se tivesse engolido um GPS mágico, o indígena doma com destreza um velho e conservado Toyota ano 98 pelo altiplano boliviano. Cravada no sul da Bolívia, na fronteira com o Chile e com a Argentina, a região estende-se por altitudes sempre acima dos 3.500 metros, tocando os 6 mil no topo dos vulcões. Desavisados que aparecem por lá elevando o Salar de Uyuni a motivo maior da viagem quebram a cara conforme montanhas gigantes, lagoas coloridas, desertos únicos, formações rochosas surreais e pequenos vilarejos surgem pelas janelas empoeiradas do carro.Por isso, caro leitor, quando pensar em Salar de Uyuni, pense em altiplano boliviano. Arrume um jeito de alongar sua viagem e fique por ali pelo menos cinco dias. A brincadeira pode começar pelo norte, via La Paz, mas preferimos colocar as rodas na estrada a partir de São Pedro de Atacama, pelo sul, ainda no Chile, e entrar nos domínios de Evo Morales através do ponto fronteiriço de Hito Cajon, onde o policial acabava de secar uma aguardente de pêssego para enganar o frio e nocautear o tédio. Após o discurso embriagado do moreno de verde-oliva em seu pequeno bunker encimado pela bandeira boliviana rasgada ao meio pelo vento, o desejado carimbo borrou nossos passaportes e nos deu passe livre para entrar na Bolívia e conhecer a Reserva Nacional de Fauna Andina Eduardo Avaroa, lar de raríssimas árvores e de visíveis flamingos, raposas, condores e viscachas - os roedores típicos do altiplano, mais fortes e sossegados que um coelho.O primeiro ponto onde dom Marcelino precisou cravar o pé no freio foi diante da Laguna Verde, a 4.400 metros de altitude. A essa altura, o ar rarefeito já cumpria a função de tentar derrubar os forasteiros. No entanto, a tonalidade verde alguma coisa da água - criada por uma sopa de minerais (chumbo, enxofre, arsênico e cálcio) - e a visão imponente dos 5.960 metros do vulcão Licancabur curam qualquer mal-estar. Depois de uma breve caminhada de aclimatação pelo terreno pedregoso, o carro volta à estrada e desliza por uma planície ladeada de montanhas até a estranha visão de pequenas formações rochosas nas escarpas. A impressão é que as pedras caíram ali sem querer, quando alguém as carregava para outro lugar. Não à toa, o local é batizado de Vale de Dali, uma alusão ao pintor surrealista catalão.

ÁGUA QUENTE E ARMAS QUÍMICAS

A parada para o almoço acontece à beira da Laguna Salada, nas Termas de Polques, pequeno refúgio turístico construído por uma ONG japonesa. Não foi preciso coragem para vencer o frio, vestir o calção de banho e, sob o rasante de flamingos, sentar na pequena piscina com água vulcânica a 30 graus Celsius enquanto a comida ganhava cheiro e uma senhora de bochechas rosadas lavava roupas coloridas. Com o corpo aquecido e revigorado, continuamos nossa jornada rumo ao norte do altiplano. Expedições 4x4 não devem, no entanto, ser traçadas sem imprevistos - ainda mais na Bolívia e a altitudes elevadas. Nosso primeiro contratempo veio na forma de uma fumaça branca e de um jato de água pelando espirrado pelo radiador do carro. Enquanto dom Marcelino estacionava tranqüilamente, arregaçava as mangas e debruçava o corpo barrigudo sobre o motor, quatro humanos vestidos de laranja apareceram no horizonte empunhando enxadas e pás.Desejei boa sorte ao sereno mecânico e, ao lado do fotógrafo Everton Ballardin, encarei uma pernada até a improvável frente de trabalho. A turma sua ali para retirar do solo e ensacar por dia 3 toneladas de bórax, um composto químico branco utilizado na indústria farmacêutica e na fabricação de inseticidas, vidros e cerâmicas. "Ficamos aqui nesse acampamento três meses sem voltar para casa", nos conta Jaime Spinoza, de 25 anos, satisfeito com o salário de 1.800 bolivianos (pouco mais de 230 dólares) embolsados por mês. Gonçalo Quispe, dois anos mais velho, toma a palavra e garante que esse é o seu último trimestre por lá. Diz que o pó tóxico lhe maltrata os pulmões e sussurra ter descoberto que o bórax é utilizado na elaboração de armas químicas. "Depois que soube disso, não consigo mais trabalhar aqui. Vou embora.""Vamos!", vem o grito ao longe. É ele, dom Marcelino, anunciando a continuação da jornada. O estrago no radiador, no entanto, foi grande e precisamos voltar às Termas de Polques atrás de ajuda. A horas de qualquer civilização, apenas com um aparelho de radioamador e com parte da expedição já capturada pelo mal da altitude, passamos a noite em sacos de dormir no refúgio existente ali, enquanto a gigantesca lua cheia ilumina os serviços na oficina mecânica improvisada. Marcelino faz mágica e na manhã seguinte o 4x4 ronca suave em meio a outros mais de dez carros idênticos e cheios de turistas europeus, porque sul-americano aqui é raridade. Horas depois, orgulhoso, o motorista reduz a velocidade diante de nova cortina de fumaça. Desta vez, o vapor brota de dentro da Terra. A 4.850 metros de altitude, em uma área de 1 quilômetro quadrado, piscinas de lamas coloridas borbulham nos buracos do gêiser Sol de Mañana. Cuidado por onde anda e esteja pronto para inalar generosas porções de fumaça com cheiro de enxofre e para ser alvo de pingos quentes de lava vulcânica. Perigoso e interessante.

DISNEY E GAUDÍ

O almoço do dia está programado para Villamar, sossegada cidade encravada entre paredes de pedra e plantações de quinoa, grão recentemente elevado pela ONU a alimento mais completo do mundo - apesar de ser plantado da mesma maneira há séculos. Villamar é uma típica cidade do sul altiplano: vazia de gente, cheia de alpacas, com um amontoado de casas de pedra ou adobe, clima frio, muito vento e seca, mas com um riozinho que salva a pátria. Depois de um giro pela peculiar praça central, onde o coreto é decorado com desenhos impagáveis dos personagens de Walt Disney, seguimos adiante para alcançar o Vale de San Agustin antes do pôr-do-sol. Se no dia anterior a inspiração das pedras veio de Dali, agora é a vez de Gaudí moldar as rochas - a Casa Batló, o Parque Guell e até a Sagrada Família, ícones de Barcelona, na Espanha, surgem em réplicas naturais a 3.900 metros acima do nível do mar. Merece foto. Mas dom Marcelino, prudente, não gosta de dirigir à noite e sabe que há muito a ser apreciado pela frente.A viagem segue até Atulcha, na beira do Salar de Uyuni, onde o famoso Hotel Marith, construído com blocos de sal, brilha com os raios da lua no meio de uma planície vazia. É estranha a sensação de estar ali. Chão, paredes, camas, mesas, criado-mudo... tudo é moldado em sal e amarelado pela luz de velas. Não há aquecedor, nem maiores confortos, mas a atmosfera inusitada, a vista do salar pela janela e o banho quente tornam inesquecível o pernoite regado a sopa instantânea.A alvorada é embalada pelo desejo de finalmente entrar no maior salar de mundo. Mas, como dissemos, as atrações no altiplano se sucedem para concorrer com a planície branca. Pare em Aguaquiza para ver o museu local e apreciar o esforçado coral de crianças, que cantam músicas típicas aos visitantes à espera de presentes. As vozes agudas servem de fundo musical para o encontro com múmias pré-incas desenterradas em catacumbas nas cavernas da cidade. Engraçado é ler nas placas descritivas do museu a explicação de que aqueles seres, há imprecisos milhares de anos, passavam o dia tomando conta de lhamas, vicunhas, batatas e quinuas. Exatamente o mesmo que fazem hoje os 101 habitantes de Aguaquiza.Foi atrás de mais múmias para o museu da cidade e para "enfeitar" o cemitério pré-incaico ali do lado que dois locais, Nemecio Copa e Pelagio Huayta, passaram a cutucar as paredes frágeis dos arredores. A mão esperta e curiosa em um pequeno buraco escuro levou a dupla de caçadores a um salão com resquícios de corais marinhos, rapidamente batizado de Galáxia e tornado ponto turístico em 2004. Vale uma parada de meia hora para ouvir a história da guardiã do local, esposa de um dos descobridores. Além do mais, ver uma caverna de corais marinhos acima dos 3.600 metros de altitude é uma boa catapulta para começar a entender que o Salar de Uyuni há 40 mil anos foi o fundo de um gigantesco lago com 70 metros de profundidade.

STEAK DE LHAMA NO SHOPPING

É de supetão que, finalmente, a viagem é engolida pelo vazio do salar. Dom Marcelino acha o trilho escurecido pela borracha dos pneus e segue a acanhados 40 km/h. "É escorregadio", justifica. Não demora muito para a cena descrita na abertura desta reportagem ganhar forma. Enquanto uns brincam de tirar fotos abusando da falta de pano de fundo, outros se afastam e caminham a esmo como se tragados pelo nada de Maurício de Souza e Schopenhauer. As montanhas que aparecem ao fundo crescem ou somem conforme a incidência de luz. Dizem que na época de chuvas (de dezembro a março), quando parte do salar fica intrafegável, um espelho de 30 centímetros de água reflete de uma vez por todas o céu tornando o cenário ainda mais dramático. Minha vontade era continuar andando sem destino pelo chão de sal. Ir até que o nada tomasse conta da visão, da audição e da mente.Mas antes mesmo do chamado de dom Marcelino, meia dúzia de jipes já havia passado por nós. Natural. O salar é o miolo turístico do altiplano. Isso não significa engarrafamentos ou distúrbio das leis do silêncio. Acelere, no entanto, mais 20 quilômetros rumo leste até a Ilha Incahuasi para, aí sim, ter um flash-back, bem modesto, da chegada a um estacionamento de shopping center. Carros manobram pelo chão que parece neve. Excursões circulam pelo acanhado centro turístico. Não dê bola para a cena e siga pela trilha bem sinalizada que corta a ilha em uma caminhada de uma hora. Você encontrará gigantescos cactos verdes de folhas amarelas forrando a porção de terra cercada de sal por todos os lados. Lugar precioso. Uma carta na manga do salar para mostrar quem manda por ali. Se quiser aproveitar a deixa turística e não tiver pudores carnívoros e ou ecológicos, trace um steak de lhama com batatas fritas no restaurante. Levemente dura, a carne é cheia de sabor.O GPS mental de dom Marcelino volta a marcar o norte e o carro quebra à esquerda, em direção a Coquesa, um povoado de 30 habitantes espremido entre o salar e os 5.432 metros do vulcão Tunupa. Diz a lenda que o imperador inca Atahualpa, que usurpou o trono de seu irmão por volta de 1520, teria acariciado os seios de uma mulher nas encostas da montanha. O leite espirrado teria formado o salar. Haja leite! Lendas à parte, o Tunupa, vez ou outra, ainda solta leves rajadas de fumaça e atrai um punhado de turistas até a boca disforme de sua cratera. Encontre um dos moradores e peça uma visita guiada até o interessante museu, onde é possível ver roupas e artefatos de ouro, cobre e cerâmica de tempos imemoriais.

SAL, PRATA E GÁS

Paisagem certa para o pôr-do-sol de logo mais são as pequenas pirâmides brancas na borda leste do salar. Ali, os campesinos de Colchani cravam suas picaretas no chão para juntar o sal em pequenos castelos cônicos que abastecem as refinarias artesanais nos arredores. Vale a pena parar na Cooperativa Rosário para ver o trabalho de secagem, refinamento, mistura ao iodo (para ajudar no combate a doenças, como o bócio) e acondicionamento do sal. A mercadoria é meio de subsistência para a população, que tenta trocá-la por lenha, banha ou carne nos vilarejos vizinhos. "Infelizmente, é um comércio cada vez mais regional e muito pequeno", lamenta Juan Calizaya, de 53 anos. "Vendemos 50 quilos de sal por 8,5 bolivianos (pouco mais de 1 dólar)", diz. Em Colchani, sem dúvida, o sal vale mais como matéria-prima para suvenires do que embalado como tempero.A chegada à escura cidade de Uyuni acontece durante a noite. Com 14 mil habitantes, é o único local com alguma infra-estrutura naquele pedaço do sul da Bolívia. Talvez por isso nem seja necessário andar dois quarteirões para ler pichações políticas a favor do presidente Evo Morales nos muros. "Nacionalização sem indenização", dizia uma, para desespero da Petrobras. "O gás é nosso", bradava outra. A prata também era, lembrarão os mais antigos. Por isso, no dia seguinte, quando dom Marcelino embica o carro rumo ao sul, dá um nó na garganta ver o cemitério de locomotivas enferrujadas na Avenida Ferroviaria. As máquinas remetem ao final do século 19, quando os trilhos começaram a tomar conta da Bolívia para escoar a prata e o estanho retirados das minas. Os minérios, usurpados desde a chegada dos espanhóis, rarearam. Para os bolivianos, sobraram aquelas senhoras idosas abandonadas e uma cidade que, sem explicação, escapou de sumir do mapa.Uma reta nos afasta do salar de volta ao sul do altiplano. O cenário ermo continua até a chegada de uma nova série de formações rochosas, batizadas de Roquedales de Alota. Para desespero do sempre pontual e tranqüilo dom Marcelino, é muito fácil sentar em qualquer canto e gastar horas descobrindo pedras no formato de coelhos, águias, cachorros... Com sorte, uma raposa, de verdade, vai dar o ar da graça antes da partida em direção ao local do pernoite: o sinistro, mas delicioso Ecolodge Los Flamingos. A construção, com cara de barraco de periferia, surge no breu do céu mais estrelado da viagem - e talvez de todos os tempos. A falta de energia mantém a escuridão durante a noite e embala as conversas à luz de velas e já em ritmo de despedida.A vista pela janela do aconchegante quarto faz saltar da cama na manhã seguinte. O ecolodge, quem diria, está na beira da linda Laguna Hedionda, um santuário repleto de flamingos. Programa certo é vestir o casaco, preparar o chá quente e fazer uma caminhada enquanto as aves despertam e começam seu balé. Dom Marcelino, esperto, sabe que não pode nos deixar ir longe para não atrasar o cronograma. De longe, avisa que é hora de seguir em frente. É o último dia, mas há muito a ser visto. O primeiro destaque é o Deserto de Siloli, um amplo e aberto platô avermelhado onde o vento encontra campo fértil para ganhar corpo. Mais adiante, mire os olhos nas paredes de pedra cobertas por um musgo verde utilizado para fazer fogo. Nesse ambiente, enquanto condores usam e abusam das térmicas lá no alto, não é raro ficar frente a frente com as peludas viscachas que posam para as fotos.Ainda na vastidão do Siloli, surge a famosa Árvore de Pedra, talvez o cartão-postal menos desconhecido do altiplano. Com seus 7 metros de altura, a rocha em formato de árvore serve como abre-alas para mais uma série de formações rochosas belas o suficiente para deixar dom Marcelino desesperado com o horário. Você pode apenas parar, fotografar e seguir em frente, mas é difícil deixar para a próxima uma caminhada pelas pedras que rodeiam o lugar. Dá até para arriscar uma escalada. Há quem diga que a atração seguinte, a Laguna Colorada, deve ser apreciada no pôr-do-sol. Talvez seja verdade. Mas nós chegamos ali com o sol a pino e mesmo assim ficamos diante de um dos visuais mais impressionantes da viagem. Com 60 quilômetros quadrados, a lagoa repleta de minerais esbanja vermelho por conta da enorme quantidade de algas e plânctons. Nas laterais, o branco forte vem do bórax, do sódio, do magnésio e da gipsita. É um cenário de cores fortes, difícil de acreditar, ainda mais com o balé em fila indiana dos flamingos rosas.Apesar do vento cortante e do frio abaixo dos 10 graus, é triste ir embora da Laguna Colorada. É uma paisagem simples e magnífica demais para ser deixada para trás só porque dom Marcelino está ali de olho no relógio. Mas a Vontade (com maiúscula mesmo), diria Schopenhauer, torna o homem um ser movido por paixões e, conseqüentemente, o leva a uma cadeia infinita de desejos e sofrimentos. Por isso, além de nos levar com destreza e segurança pelo altiplano, o piloto boliviano foi uma espécie de guia espiritual a nos ensinar a ir embora sem sofrer, mesmo diante de paisagens que mereciam uma vida inteira de contemplação.VEJA MAIS EM ALTIPLANO BOLIVIANO



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